Nestes apontamentos abordo diferentes níveis de leitura que encontro no projecto “Império” e contextualizo algumas imagens relacionando-as com trabalhos anteriormente realizados. Ao longo de uma visita à exposição é evocado o espaço real da Cidade e o indefinido Universo da Arte. Percursos, escala, capacidade de afirmação, repetição histórica são temas do meu interesse que se cruzam constantemente. É nas grandes cidades que a Arte está mais próxima de pertencer à realidade do dia-a-dia. Nas capitais dos Impérios a Arte afirma-se e desenvolve-se próxima do poder económico e politico, transforma-se, é objecto de estudo e faz-se História.

----------império----------

No corredor do edifício da companhia de seguros Mundial Confiança, no Largo do Chiado em Lisboa encontra-se um amontoado de objectos que apresentam uma condição temporária. São tábuas pintadas, chapas, sinais de trânsito falsos, arame, tijolos e outros objectos encontrados. O espaço é violentado pela presença destes objectos que celebram a transitoriedade dos Impérios.

Império é também o nome de uma companhia de seguros concorrente no mercado e “Empire”, em inglês, é o título de um filme de Andy Warhol. O filme de 1964, com oito horas de duração é uma celebração da arquitectura, da verticalidade e do poder do capital. Empire State Building é visto como uma estrela e como um símbolo da metrópole que governa culturalmente e espelha o poder económico da Potência.


Na exposição apresento dois vídeos:
O vídeo “Império” que dá título à exposição é também representativo de uma condição. Num plano fixo, o edifício Porto Trade Center destaca-se pelo seu volume de toda a paisagem envolvente. Transforma-se no único elemento da imagem. A concorrer com esta verticalidade, para além da linha do horizonte, encontram-se duas gruas com movimentos colineares que comparo a uma coreografia de Trisha Brown. Quando a grua da esquerda sai do plano, entra à direita uma segunda grua. As imagens foram recolhidas no final de um dia de Inverno e não houve qualquer manipulação da imagem. Esta recolha integra um trabalho, em processo, sobre o nascer e por de sol no solstício de Verão e Inverno - o dia mais longo e mais curto do ano.

RIP, o segundo vídeo, afirma um contraste com Império.
As cores quentes e a escala massiva da arquitectura são substituídas pelas cores frias de imagem nocturna e pela presença humana.
O casal de namorados à distância fica irreconhecível. A acção é mínima e tal como em Império há micro movimentos que parecem conquistar protagonismo sobre o elemento principal. Um papel ou plástico brilhante voa em círculos no canto inferior esquerdo da imagem e transforma-se em elemento de distracção. São imagens que parecem repetir-se na história das imagens: de David e Golias a American Beauty. Há tensão na imagem. O plano mantém-se fixo ao longo de oito minutos e há apenas uma abertura de campo quando o casal decide abandonar o local. Este novo plano revela o contexto arquitectónico onde o casal se encontra e numa parede a inscrição RIP. O graffiti RIP havia já sido apropriado para a exposição Vidália na Galeria Quadrado Azul, em Setembro de 2006.

As imagens dos dois vídeos foram recolhidas a partir de minha casa: Império a poente, RIP a nascente e são um olhar sobre a adolescência e o crescimento das cidades.
Toda a cidade tem a necessidade de se experimentar e de afirmar o seu crescimento. Esta cidade tem mais de mil anos mas por vezes tem comportamentos de adolescente inconsequente, preguiçoso e que se faz passar por adulto. A verticalidade das grandes capitais é imitada mesmo em locais onde esta não se justifica. Este “Império”, à nossa escala, surge de imediato desadequado, obsoleto e em falência.


Estes dois vídeos são apresentados a partir de um passadiço que atravessa a sala. A construção em madeira e chapa de zinco replica construções semelhantes que se encontram no exterior. Transformo a sala de exposições em lugar de passagem e não lugar de estar. Entre a ironia e a afirmação política, a sala de exposição perde o seu carácter central e transforma-se em continuação da rua e do corredor. Passa a fazer parte de um percurso até ao jardim do edifício. O público e as imagens ficam sempre nas margens do espaço. O centro esvazia-se. Tudo se passa na periferia. Uma linha amarela ondulada e pontos negros mostram a possibilidade de um outro percurso ao visitante.

Portugal é periférico. O Porto é periferia. Os Açores são ultraperiféricos.
Esta minha relação com a periferia não é só geográfica. É também na periferia da actividade criativa que encontro referências. Nos lugares, objectos e acções onde esta não espera ser valorizada. O modo como a composição de uma cidade resulta da acumulação, sobreposição e justaposição de acasos e rigor e da soma de diferentes partes é o ponto de partida para o projecto. As pequenas construções improvisadas que na cidade reservam ilegalmente lugares de estacionamento e as listas brancas e vermelhas que se espalham pela cidade sinalizando obras e objectos estranhos cruzam-se no meu imaginário com a tradição da escultura ou referências da arte contemporânea. Não consigo ver listas vermelhas e brancas sem pensar em Daniel Buren, pinturas geométricas em carrinhas que se transformam em imagens de Ellsworth Kelly, construções improvisadas que me lembram que toda a escultura define um lugar: afirma-o e transforma-o em centro mesmo que se trate de uma peça de canto (corner piece).

Esta exposição é resultado de percursos na cidade -do Largo do Rato ao Chiado, da Lapa à Praça Carlos Alberto - e do encontro de objectos e obstáculos carregados de valor plástico involuntário. A importância do “percurso” no processo contamina acentuadamente a exposição. O público entra no edifício, avança no corredor, contorna uma sala, passa ao jardim e confronta-se com a cidade, regressa ao corredor, entra numa segunda sala, contorna uma escultura, passa a uma terceira sala. O percurso não é necessariamente este mas é assim que eu penso e apresento ao falar da exposição. Foi uma solução encontrada para contornar as dificuldades do espaço: duas salas brancas separadas por um corredor onde se confrontam diferentes tipos de arquitectura. A possibilidade de circular entre rua, atelier e espaço de exposição também pertence a qualquer um dos objectos apresentados. É este o percurso normal de um projecto ou ideia.

À segunda sala chamo “espaço de exposição”. Aí apresento uma diversidade de obras que recorre à fotografia, à escultura e a diferentes géneros de desenho e pintura.
São obras que reflectem o espaço urbano e lembram-nos a precariedade e o ritmo repetitivo através de diferentes construções em equilíbrio e composições pictóricas a partir do jogo de computador Sim City que se confundem com pinturas tardiamente modernistas. Também de uma forma muito literal são apresentados medos e o stress contemporâneo.
Trata-se de uma exposição individual que aparenta uma fragmentação da identidade do autor e do valor dos objectos enquanto obras de arte. Pinturas na parede convivem com baldes de pedras e garrafas de cerveja, no meio de paus encostados à parede encontra-se uma obra de João Marçal, outro artista. Objectos apropriados confundem-se com objectos realizados no atelier. Uma peça de canto confunde-se com uma barreira que num museu guarda distância entre obras e visitantes. Uma escultura de composição radial afirma-se como centro e obstáculo obrigando a um percurso à sua volta. Esta diversidade apresenta-se como um jogo com o “imaginário da Arte” e suas formas de expor. Surgem então questões como: De que forma pode a Arte representar-se a si própria? Haverá alguma obra de arte capaz de o fazer? O retrato de um artista ou a fachada de um museu? Estará a Arte a fazer-se usar de estratégias formais e conceptuais para afirmar continuamente o seu valor?

O acesso à terceira sala é feito a partir do segunda sala. A entrada foi aberta na arquitectura existente com violência e a sua abertura desenha uma curva que se aproxima mais de uma caverna do que uma porta de gente civilizada. No interior encontram-se obras na parede, no chão e numa mesa. Repetem-se imagens (a fotografia da caveira), criam-se associações com outras obras expostas (um espelho partido, um “X” numa pintura), outros projectos (tábuas pintadas, “N de Norte”) e outros autores (um desenho de uma caveira de Mauro Cerqueira). Encontram-se pinturas inacabadas e objectos que aparentam ter função prática –um móvel vazio; uma mesa de trabalho; ao canto, lâmpadas fluorescentes fundidas.
Pirilampo mágico, skate-sarcófago, janela verde, patinho feio, eclipse, gráfico “erro por série”, lâmpadas fundidas, teia e bússola, espelho partido, caixa de espelhos, tábuas de skate, fotocópia negra, são algumas das peças no atelier.
Qualquer um destes objectos poderia estar na sala maior, a sala de exposição. Cria-se uma ambiguidade quanto ao valor destas obras que estão em exposição mas num espaço que se identifica com o atelier – o lugar romântico da obra inacabada. Esta é uma exposição possível. A diversidade de possibilidades não significa insegurança ou falta de certezas. Quero com esta exposição evocar outras. O valor e lugar de cada peça e de cada ideia é relativo e pode ser repensado a todo momento. A mesma imagem pode ser vista várias vezes na exposição.

O “dejá vú” acontece a todo o momento. À escala do Mundo e do Tempo cada dia é a repetição do anterior e se só existissem duas gruas na cidade, estas seriam ponteiros de um grande relógio.


AS.IX07

Fotografia | Photography:
Blues Photography Studio, 2007.

Vídeo | Video:
Andy Warhol "Empire", 1964. (Youtube's excerto | excerpt)

VIDÁLIA

“A. T. E. Vidal / Azorina vidalii (Watson) Ferr / Vidália” é o título da exposição individual de André Sousa que inaugura no dia 23 de Setembro na Galeria Quadrado Azul, espaço Q3.

Alexander Thomas Emeric Vidal, ou Capitão Vidal, comandou missões hidrográficas no Oceano Atlântico na primeira metade do séc. XIX. Em honra ao Capitão inglês pela importância que teve no levantamento hidrográfico do arquipélago dos Açores, Hewett Cottrell Watson deu o nome Campanulla Vidalii (Watson) a uma planta endémica deste território e propôs, sem sucesso, a criação do género botanico Vidália.
Azorina Vidalii (Watson) Ferr é o actual nome científico desta planta, Vidália é seu nome comum.

No espaço Q3, André Sousa apresenta uma instalação onde pinturas, desenhos, fotografias e objectos criam dois momentos que se relacionam.

Num primeiro momento a série Toy convoca o espaço urbano contemporâneo. A linguagem de rua e os grafitty são representativos da necessidade de afirmação e da pluralidade de identidades que existe nas cidades.

São apresentadas pinturas a óleo resultantes da apropriação de grafitty reais encontrados no Porto, em Lisboa, Matosinhos, Perafita, Maia, Felgueiras e Leça da Palmeira.

Todas estas imagens têm em comum uma debilidade característica de obras realizadas por iniciandos. No processo de iniciação a uma cultura urbana, adolescentes trocam o seu nome verdadeiro por pseudónimos que levam para as ruas sobre a forma de grafitty. Neste processo os mais experientes e capazes, no topo de uma cadeia hierárquica afirmam-se como King(s) e os mais novos são denominados pejorativamente como Toy(s). Os primeiros grafitty realizados por um indivíduo apresentam imaturidade na forma e técnica que em muito tem a ver com tenra idade ou com uma verdadeira incapacidade. Alguns são experiências pontuais. Encontram-se grafitty que estão mais próximos de questões pictóricas do que da sua própria cultura. Muitas destas primeiras experiências estão mais perto do domínio da brincadeira do que do da afirmação pessoal, cultural e politica.

A uma outra escala, qualquer pequena cidade que se queira afirmar contemporânea terá que ter as suas paredes bem riscadas. O fenómeno do grafitty, tal como o conhecemos terá começado no início dos anos 70 em Nova Iorque alastrando-se rapidamente para toda as grandes metrópoles.

Num segundo momento, Novo Mundo, leva-nos para um passado indefinido tão próximo do dia de ontem como da origem. Desenhos, fotografias e objectos exploram modelos de representação da paisagem com recurso à paisagem açoriana.

A origem vulcânica do arquipélago tem curiosos resultados na morfologia dos terrenos onde a sua própria história se torna visível através de diferentes extractos. Se a ideia de território em transformação está presente nesta paisagem é por motivos bem diferentes dos de ordem politica. Aqui as fronteiras crescem ou diminuem por vontade própria.

A paisagem açoriana convoca constantemente a sua própria história e identidade através da sua morfologia, da constante datação de edifícios nas suas fachadas, datas de construção e reconstrução provocadas por sismos, ou pela apresentação de dupla identidade cultural quando a bandeira do país que recebe os emigrantes locais é colocada, em mastros no exterior de casas privadas, lado a lado da Portuguesa ou da bandeira da Região Autónoma dos Açores,

Pela sua condição insular, entre a Europa e a América, este espaço físico tem a sua origem enquanto paisagem num momento em que Portugal já tinha memória constituída e o seu território aculturado. Não podemos esquecer que o conceito de paisagem resulta de três factores: espaço, tempo e cultura. Com o povoamento de um território virgem surge a necessidade de conhecimento contínuo sobre esse mesmo espaço. O mapa pela sua utilidade prática é o ponto de partida para um conhecimento ramificado.
Os primeiros mapas realizados sobre qualquer território apresentam sempre falhas. As distâncias e formas não correspondem às verdadeiras e conhecer a conquista do pormenor e a variação da toponímia através dos sucessivos mapas de uma região é assistir à redefinição de um território.

Da sua condição insular resulta ainda o estatuto de região ultraperiférica da União Europeia.


A energia em potência de um vulcão comparada à de um adolescente.
O entusiasmo com que se desenharam as primeiras cartas e se realiza hoje um primeiro grafito; aculturação, identidade, marginalidade e inscrição contínua são conceitos que se podem estudar a partir das paredes de uma cidade.

A contemporaneidade resulta frágil e condenada ao obsoleto se a olharmos deste ponto de vista. A imaturidade destas afirmações de identidade pertence a indivíduos isolados mas também ao tempo que estamos a viver. Um tempo entre o anterior e o que se segue.
Um tempo por definir.

“Alvoroço” seria um outro título possível para esta exposição.

André Sousa
08.IX.2006



“Azorina vidalii (Watson) Feer (CAMPANULACEAE)

(Vidália) Em todas as ilhas dos Açores.
-Endémica dos Açores

Pequeno arbusto com rosetas terminais de folhas glabras, verde escuras ou verde-acastanhadas; flores brancas a cor-de-rosa, semelhante na forma às flores das espécies do género Campânula. – Foi nalgumas ilhas plantada como ornamento o que provocou a sua expansão a novas localidades. O maior úmero de populações naturais está actualmente no Pico, S. Jorge, Flores e Corvo. Cresce principalmente nas fendas das falésias costeiras onde não haja acumulação de solo, mas também em vertentes abruptas com depósitos arenosos. Na ilha do Corvo aparece inclusivamente no telhado de algumas casas. Sempre em habitats fortemente expostos. Cresce frequentemente associada com o Crithmum maritimum e com outras espécies tolerantes à brisa marítima. Existem várias populações, que nalgumas localidades podem ser razoavelmente grandes. Apesar de tudo, esta planta, que é uma das mais valiosas e bonitas da flora açoriana, carece de protecção no s seus habitats naturais. A espécie é endémica dos Açores. “

SJÖGREN, Erik -Plantas e Flores dos Açores. Espaço Talassa, 2001.